Quarta-feira, 29 de Fevereiro de 2012
Este dia é estranho porque só aparece no calendário de quatro em quatro anos. Tenho uma amiga que nasceu neste dia 29 de Fevereiro. Comemora o seu aniversário no dia em que nasceu apenas de quatro em quatro anos. Nos outros anos, aqueles que não são bissextos, nunca sei em que dia lhe devo dar os parabéns pelo seu aniversário, se no dia 28 de Fevereiro, se no dia 1 de Março.
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Segunda-feira, 27 de Fevereiro de 2012
O abate de uns plátanos de grande porte, nas Caldas das Taipas, na envolvente das termas, numa zona sensível, deixou-me perplexo. Barbáries destas deveriam ser criminosas, por destruírem um património que, fazendo parte da memória colectiva de um povo, deveria ser considerado público por ser num espaço público, apesar de estar em propriedade privada. Já para não lembrar que as árvores se assumem como elementos fundamentais atenuantes do aumento global da temperatura e da seca, que são já evidentes também em Portugal, mas a que ninguém liga peva.
Por um lado há uma liberdade perversa para se fazer o que se entende e por outro a incapacidade de fazer seja o que for para impedir actos de ímpeto meramente destrutivo. Actos consumados e irreversíveis que põem fim, numa manhã, a um processo que levou longas décadas a desenvolver-se. A paisagem que temos hoje em Portugal, reflecte uma estupidez que se tornou endémica – a liberdade conquistada com a revolução, serve também para rebentar com tudo onde se pode pôr as mãos. “Eles fodem tudo e não deixam nada” seria certamente o que cantaria hoje Zeca Afonso.
É tabu dizer à geração que a fez, que a revolução não foi só um mar de cravos. Ser esta mesma geração, que transformou o país desde 1974 e que toma conta dos destinos do país é um problema sério que as próximas gerações terão que pagar caro. Por resolver está ainda uma incapacidade de saber usar bem a liberdade que se conquistou, saber bem a lição do bem e do mal, saber valorizar o colectivo garantindo-se assim também o benefício individual. As pessoas têm que perceber que não podem fazer tudo o que lhes dá real gana. Isso fazem os bichos. Enquanto isso não acontece, Portugal desaparece, consome-se, endivida-se, queima-se, destrói-se até que de Portugal já não haja nada que se identifique como português. Para já, ainda resta o que permanece intocado ou que ficou esquecido – cada vez mais numa felicidade do acaso.
E agora, àqueles a quem estas palavras não caírem bem e como muito previsíveis que são, provavelmente irão dizer que sou de direita, salazarista, conservador, fascista e quejandos. Além de estarem enganados também nisso, não me incomodam minimamente porque quanto mais disparatarem, mais razão me dão.
Domingo, 26 de Fevereiro de 2012
Não chove desde o Natal. Está a ser um Inverno extremamente seco ameaçando as colheitas. Dizem que será o Inverno mais seco desde que há registos. Este até pode ser um caso excepcional, mas uma coisa é certa: é inquestionável que a alternância das estações do ano são cada vez mais imprevisíveis.
Sábado, 25 de Fevereiro de 2012
Mais 20 páginas para preencher. Na verdade são algumas menos descontando a publicidade. No entanto, esta fase mensal na elaboração do jornal Reflexo tem sempre algo de assustador. A História não se inventa, mas dá algum trabalho a ser escrita.
Sexta-feira, 24 de Fevereiro de 2012
Considero-me uma pessoa tolerante, alguém que respeita as escolhas dos outros, mesmo não concordando com elas. Nesse sentido acho que a discriminação racial, sexual ou religiosa é algo de inaceitável nos dias de hoje, tendo em conta toda a história da humanidade, particularmente de alguns dos seus mais tristes episódios.
Não posso no entanto concordar que ao procurar que as diferenças sejam aceites naturalmente, que as mesmas diferenças deixem pura e simplesmente de existir – um homem branco é diferente de um vermelho; um homossexual é necessariamente diferente de um heterossexual. São diferenças naturais, tão naturais que devem ser aceites como tal. Julgo que não podemos fazer de conta que essas diferenças não existem.
É um tema sensível. Tenho amigos e conhecidos que têm uma cor de pele diferente da minha ou, por escolha ou não, têm uma orientação sexual diferente da minha. Nunca me passou pela cabeça tratá-los de forma diferente por causa disso, nem acho que me tratem de forma diferente por ser diferente deles nesses aspectos. E a diferença termina aí, não determina nenhuma diferenciação no tratamento, mas não é por isso que deixa de existir.
Poderá discutir-se se é será ou não natural que dois homens ou duas mulheres se relacionem. Indiscutível é a impossibilidade de dois pares do mesmo sexo conseguirem naturalmente ter filhos. Houve hoje uma proposta em discussão na Assembleia da República que propunha que casais homossexuais pudessem adoptar crianças, proposta essa que foi chumbada. Por muito ténues que sejam as diferenças, elas existem. A tolerância e o respeito pelas diferenças não fará com que sejamos todos iguais, quanto mais não seja pela própria definição de diferença.
Quinta-feira, 23 de Fevereiro de 2012
Houve hoje desenvolvimentos em dois casos que se arrastam na Justiça portuguesa há largos anos – o caso do desaparecimento de um miúdo de Lousada, chamado Rui Pedro, em 1998; e o caso Casa Pia, envolvendo personalidades conhecidas e socialmente importantes em suspeitas de crimes sexuais com menores, que se desenrola desde 2003.
No primeiro resolveu-se pela absolvição do único arguido no processo por não existirem provas suficientes para provar o seu envolvimento no desaparecimento do rapaz. No segundo, houve uma espécie de regresso à casa de partida, com a anulação de uma parte da acusação do processo.
Tanto um caso como o outro são bons exemplos da péssima Justiça que existe em Portugal. Para que serve um Estado onde a Justiça não funciona? Um estado atafulhado de regras e de regulamentos é sintoma de que algo está mal. O ideal era que as regras não fossem necessárias por as pessoas conseguirem viver umas com as outras de forma harmoniosa, respeitadora e pacífica. Pior é ter um estado gordo de leis que não consegue cumprir, que não consegue fazer cumprir e que é incapaz de reagir eficazmente quando as vê postas em causa.
A fraca exigência do povo é bem visível no Carnaval. Por aqui, foram muitos os que vieram ver o corso carnavalesco. Os organizadores das festas, entregues a uma associação local e à Junta de Freguesia, devem estar contentes com o sucesso. Eu fico satisfeito por eles, porque gosto na generalidade de ver acções com sucesso, retribuindo o esforço que as pessoas colocam na prossecução das suas ideias. Não obstante, este género de Carnaval é para mim pindérico.
O povo português é transversalmente e em média pindérico. Só assim se percebe por que razão os cantores de música popular consigam todos muito sucesso a cantar bestialidades ordinárias, que o futebol permaneça matéria incontestável apesar de todas as manigâncias que se conhecem, que o Michel Teló seja um caso de sucesso exponencial típico de um comportamento em rebanho, que quando se pede opinião a um português é muito provável que a resposta seja: “não há palavras”.
O povo português prefere o imediato, o gratuito e recusa o que possa exigir algum esforço intelectual. Muito por isso, a opinião pública é normalmente fraca em Portugal por não ser fundamentada. O português médio não tem o hábito de reflectir sobre as coisas. Decorrente disto, o gosto médio português é marcado por uma tendência geral que é já de si má. O mau gosto gera mau gosto e parece que há um certo orgulho nisso. Quando assim é, quando a mediocridade é o máximo que se exige, o progresso fica para lá de um bloco intransponível e se alguma manifestação de excelência surge, ela passa inevitavelmente despercebida. É o que temos (ou o que não temos).
Devo começar por dizer que não gosto de futebol. Não pelo desporto em si, mas pelos vários exageros que alimenta. Hoje o Benfica veio a Guimarães jogar com o Vitória e perdeu. Gosto quando um grupo de pessoas vagamente prepotentes, que se auto-proglamam de “grandes”, “levam na bilha”. É assim uma espécie de David e Golias.
Não percebo muito bem porquê, mas dizem que o Carnaval são três dias – aqueles que antecedem o negrume e a abstinência da quaresma no calendário católico. São três dias insuportáveis. Um período em que a parvalheira parece instituída, como se fosse necessário definir dias no calendário para se ser especialmente parvo, tão ou mais parvo que nos restantes dias do ano. A alegria, a boa disposição e o divertimento não precisam de ter calendário marcado. Acontece e pronto.