Sexta-feira, 27 de Abril de 2012
Para mim a pior parte de envelhecer não é sentir que o corpo se altera, que a pele se enruga, que os cabelos começam a nascer brancos. Essa é uma coisa que logo se interioriza e desde cedo nos habituamos à ideia de que isso irá acontecer e por isso quase nem estranhamos. Já custa mais perceber que à medida que envelhecemos, perdemos algumas capacidades e faculdades, deixando de poder fazer aquilo que fazíamos quando tínhamos dezoito ou vinte anos.
A parte que mais me custa na evidência que é envelhecer, é perceber que a frequência com que nos cruzamos com pessoas amigas e conhecidas em funerais é cada vez maior. À medida que o tempo passa, as pessoas que envelhecem como nós vão desaparecendo e quanto mais o tempo passa mais pessoas vão desaparecendo e mais depressa. É como se aos poucos fôssemos ficando sozinhos neste mundo e isso assusta-me bastante.
Por vezes, penso que gostaria de morrer primeiro do que as pessoas que mais gosto, só para não passar pelo sofrimento de as perder para sempre. Claro que essa será a mais egoísta das ideias que se pode ter, já que, se eu fosse primeiro, tal não iria resolver o sofrimento das pessoas que cá ficam.
A morte do Chico Pereira foi das primeiras notícias que recebi hoje pela manhã. Fiquei chocado e perplexo, refugiando-me numa possibilidade de não ser a pessoa que conheci. Conheço o Chico desde puto, devido à afinidade que as nossas famílias têm. Era apenas dez anos mais velho do que eu. A consternação era constante ao ler as notícias ao longo do dia, que confirmavam aquilo em que não queria acreditar.
O Chico foi-se embora e não quis saber do sofrimento dos que cá ficam. Estou triste e chateado com ele por isso, mas isso passa. Quero que ele esteja bem agora, seja lá onde for. Eu cá, fico com a certeza, cada vez mais clara, de que quanto mais o tempo passa, mais eu fico sozinho neste mundo. Descansa em paz Chico, talvez nos possamos encontrar um dia.